Pensei

Pensei

São tantas coisas que pensamos e organizamos antes de viajar, a ansiedade que temos que administrar, o tempo que é aproveitado, a cada minuto, com as pessoas que amo… e a tentativa de fazer um “estoque” para, quem sabe, sentir um pouco menos de saudade.

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Tem dias que você dá mais valor às pequenas belezas da vida e agradece por estar vivo. Hoje, nas águas termais, ao ar livre com uma vista maravilhosa de um lago enorme, onde no fim dele saiam vapor do solo fervendo (os gêiseres), uma chuva bem fina caia na nossa cara. Momento pra ser guardado.

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Não pensei!!!
A cada dia na Índia, somos obrigados a não pensar, senão dificulta as coisas. Melhor ir levando… e saber que uma pessoa nunca mais é a mesma depois de passar pela Índia.

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Muito nas pessoas que amo estes dias… aproveitei a internet fácil e falei com todos…
Saudades!
Tudo passa muito rápido, daqui a pouco estarei aí.

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Na história de um jovem tibetano que há 11 anos atrás, com 22 anos, fugiu do Tibet. Buscava uma vida melhor, longe da opressão do invasor que buscava controlar seu destino. Após 1 ano em Dharamsala (Índia), cidade que reside o atual Dalai Lama, e mais 8 meses em Kathmandu, trabalhava, aprendia inglês e buscava uma vida melhor. Um chamado o fez retornar a sua terra natal, caso contrário seus parentes teriam problemas com o governo. Hoje, quase resignado, trabalha duro, tem a foto no celular do território como sonham os tibetanos e ironiza os monumentos construídos pelos chineses que reverenciam a “independência” do Tibet das mãos dos ingleses. Se delicia como uma criança ao manusear um IPhone, teclar num laptop, e se orgulha da pessoa que mais ama na vida: sua filha de 2 anos. Sonha conhecer o mundo, não tem passaporte e dificilmente conseguirá no futuro próximo. Amante do futebol brasileiro, acaba de ganhar um souvenir: a camisa amarela 7 do Robinho. Proporcionar uma alegria, mesmo que por um instante, faz valer a vida.

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No banco de trás de uma charrete em Bagan (Myanmar) tive um daqueles momentos na vida que geralmente passam desapercebidos e que eu aprendi a reconhecer.

Foi nesse instante que me dei conta do porque Barcelona foi tão marcante na minha vida. Foi nesse instante que entendi que o que faz a vida especial é saber reconhecer-se feliz no exato momento em que estamos vivendo essa tal felicidade.

Me lembro, algumas vezes morando em Barcelona, de ter a mais clara noção de que estava vivendo dias maravilhosos e de agradecer por eles no momento presente em questão.

Depois disso, como em um mecanismo automático, agreguei isso a minha vida até hoje. Pra mim é o que faz a vida ter sentido, porque estamos sempre acostumados a reconhecer a felicidade depois que ela passa e vivermos sempre nostálgicos de “como éramos felizes naquela época”.

Mas só em Bagan tudo ficou claro pra mim. E naquele momento, ao fim do dia, voltando de charrete por meio de um cenário indescritível de pagodas antigas, depois de uma visita a uma vila de pescadores da região e, a vista de um maravilhoso pôr do sol do alto de uma das mais de 2.000 pagodas que compõem este cenário, enquanto a noite tomava o lugar daquele dia de pura felicidade, pude perceber que o dom da vida, pelo menos para mim, é reconhecer-se feliz!

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na loucura humana

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placa na piscina do hotel de koh phangan. a última frase diz: look after your children carefully not poo in to the pool otherwise it cost 50.000 if they do

na prioridade humana

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placa preferencial no metrô. a frase diz: please offer the seat to those in need

na crueldade humana

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banca da sorte. a frase diz mais ou menos: give freedom to the birds and you will have good luck forever

na bondade humana

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presente que ganhei do erik ao ver meu sofrimento, para distribuir e ajudar a acalmar a fome e os corações. inclusive o meu.

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No trecho do livro “Carta a D.“, que ganhei de uma amiga para trazer para a viagem.

“Se você se une a alguém para a vida inteira, os dois estão pondo em comum sua vida e deixarão de fazer o que divide ou contraria a união. A construção do casal é um projeto comum aos dois, e vocês nunca terminarão de confirmá-lo, de adaptá-lo e de reorientá-lo em função das situações que forem mudando. Nós seremos o que fizermos juntos.”

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Pensei que entramos na reta final… no terceiro terço da viagem… a hora em que começamos a nos dar conta de tudo o que vimos e vivemos. A hora em que a saudade e o questionamento sobre a vida na volta começa a aparecer. Pensei neste louco funcionamento da digestão acompanhar o ritmo da respiração (como colocou o Guto em um texto). Pensei na paixão que descobri por escrever e na falta de tempo para colocar todas as ideias no blog. Pensei em tudo, em cada detalhe, em cada descoberta, em cada coisa que ainda está para acontecer…

Na moça que trabalha na fábrica de plástico, mas que também é a cabeleireira dos cachorros. Nas professoras da escola que fazem bico dobrando roupas na lavanderia durante as férias das crianças. No coveiro e seu ostentoso jardim de cactos. No ex-soldado com seqüelas de guerra e que fica para cima e para baixo com a máquina de cortar grama. Na senhora de idade que trabalha como “caixa-eletrônico”. No sistema computadorizado de reservas dos quase 100 automóveis e carrinhos disponíveis. No vitorioso time de basquete que levará à votação da comunidade sua chance de participar do próximo campeonato nacional. Na governanta responsável pela comunidade que optou ser cortadora de saladas no refeitório. Pensei num engenheiro que trabalhou durante 8 anos no mercado financeiro e largou tudo para viajar o mundo. Pensei se sou feliz no meu “kibbutz”.

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Em alguns atos bonitos que vimos pelo caminho. Em Myanmar, assim como aqui na África, um sinal de respeito e muito agradecimento é, ao estender a mão a alguém, seja para cumprimentar, seja para pegar algo, a outra mão deve estar dobrada e apoiada no outro braço, na altura do cotovelo.

Também em Myanmar um grande sinal de respeito pelo dinheiro ou qualquer outra coisa que se entregue a alguém, é receber sempre com as duas mãos juntas e viradas para cima, automaticamente com o corpo um pouco inclinado para frente.

Um sinal universal é dar tchau com as mãos. As estradas do mundo nos mostram isso. Em qualquer lugar crianças saem correndo de suas casas para saudar a nossa rápida passagem dentro do caminhão, ônibus, carro, com um aceno de mão. Isso é lindo e acolhedor.

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Nas palavras….

“Primeiro você está dando a volta ao redor de si mesma, para depois dar a volta ao mundo…”

“Você tem uma busca que te levou a ir para o mundo, mas o natural é você, daqui a pouco, ver que isso tudo está dentro de você. E aí você pode estar em qualquer lugar porque a busca pára.”

Palavras sábias de duas pessoas queridas ao descreverem as mudanças que já aconteciam antes de eu “sair” e durante a minha busca.

E é exatamente o que sinto agora, perto da hora de voltar…

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nos amores da minha vida mais do que em qualquer outra coisa…

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