Como Água Para Chocolate

Como Água Para Chocolate

No trem, indo para Fès, conhecemos uma francesa que nos avisou que quarta-feira seria o maior feriado do ano, que tudo estaria fechado não só quarta, mas quinta e sexta. Era o sexagésimo dia depois do fim do Ramadã. Dia em que sacrificam um carneiro, almoçam e distribuem parte dele para os menos afortunados. Por fim ela nos disse: O ideal é que conheçam alguém em Fès que os convide a ver a cerimônia em sua casa. Parecia um tanto impossível.

Uma mistura de curiosidade e receio tomou minha mente naquela hora. Preferi deixar rolar, se tivesse que ver, veria… por outro lado seria muito interessante participar disso, já que sem querer, sem nenhuma programação, estivemos em países árabes durante todo o Ramadã, viajamos por 2 meses por outros países e voltamos à um país árabe na data desta comemoração importante… coincidência ou não, foi muita sorte.

A Medina de Fès é bem diferente da Medina de Marrakesh. Não há uma grande praça central, as ruas são bem estreitas, subidas e descidas, há muitos fondouqs, e há o mais esperado: os “Tanneries” que são curtumes onde o couro passa pelo processo que o deixa pronto para a venda. Grandes recipientes onde ficam tintas de cores e químicos variados. A vista de cima é linda. É proibido descer, já que o trabalho é bem delicado, o cheiro forte e o contato com o material perigoso.

Dois dias seguidos almoçamos em um pequeno restaurante na Medina. O dono é uma simpatia. Não fala uma palavra de francês ou inglês, então a comunicação é gestual. No segundo dia sentou ao nosso lado e nos convidou para o dia do – e com um gesto esticando a mão para frente de forma rápida – fez um barulho de navalha impossível de explicar na escrita. Felizes agradecemos, confirmamos o encontro no horário que foi escrito por ele na toalha de papel da mesa do restaurante.

Dia seguinte estávamos lá às 10 da manhã. De pé esperando em frente ao restaurante que nosso anfitrião viesse nos encontrar. Em 5 minutos chega um francês: Vocês estão esperando o Tami? Ufa, mais um para ajudar a encarar o choque. Mais 5 minutos uma americana: Oi! Vocês também vão na casa do Tami? E assim éramos quatro testemunhas prontas para juntas encararem o dia.

Chega o Tami todo sorridente e em menos de dois minutos estávamos descendo as ruas da Medina em direção a sua casa. Chegando lá subimos alguns lances de uma escada bem apertada. Na cobertura do pequeno prédio estava toda sua família e três carneiros. Um já sendo limpo, outros dois tristemente esperando sua vez. Levei uma franzida de sobrancelha ao dizer não para o chamado de assistir o processo de “limpeza” do bicho para que possa ser cozinhado. Com alguns disfarces de que estava tirando fotos escapei de testemunhar o que já estava difícil presenciar.

Já é um tanto louco pra mim uma festa religiosa girar de um torno do ato de sacrificar um animal, porém respeito e tento entender do que se trata, mas não deixa de ser louco pra mim ver a felicidade dessa gente sacrificando um animal sem a preocupação dos outros que estão olhando e esperando sua vez. Não sei se estes bichos pensam, o que sentem, mas com certeza sofrem e têm medo do que vêem. Assim tenho a sensação que comer um bicho é comer sua alma e neste caso, o medo! O filme “Como Água Para Chocolate” faz sentido pra mim neste momento.

Enquanto um especialista era responsável pelo sacrifício e limpeza da carne, os familiares assistiam, as crianças com um rodo limpavam o sangue do chão e vez ou outra faziam uma pausa para pegar uma bolacha! E eu…. fingia que tirava foto.

Claro que inventei (ou me antecipei ao dizer) que sou vegetariana. Acabado o ritual descemos para a casa do Tami. Tomamos um chá e nos preparamos para ir embora.

Na volta para o hotel passamos de novo pelas estreitas ruas da Medina. Tenho certa dificuldade e acho desnecessário entrar em detalhes (assim como não entrei em grandes detalhes do ritual), mas descrevendo por cima: muitas crianças estavam nas ruas cozinhando os carneiros, brincando, correndo de um lado para o outro, tinham cinzas por todos os lados e as ruas tinham um cheio muito forte. Sem exagero… era um filme de terror.

De volta ao hotel, de volta à realidade, parece que fomos sugados pra dentro de um filme, e agora de volta tentamos assimilar o que vimos. Ou simplesmente esquecer.

  1. Você foi esperta inventando que era vegetariana, mas devia ter tirado mais fotos dos meninos com o rodo puxando o sangue. Adoro filmes de terror. Uma foto de uma ruela, azul e branca, parecia Santorin. Parabens ao Guto que pela foto enfrentou o carneiro. Por acaso tinha bebido umas e outras? Bjs

    1. Lúcia,
      eu tenho muitas fotos dos meninos varrendo o sangue… mas achei que podia pegar leve aqui… até debatamos se deveríamos colocar ou não… assim como fotos das ruas na volta pro hotel… mas é pesado, achamos que poderiamos deixar na imaginação de vcs. quer que eu te mande por e-mail?
      o guto só provou um pouco, mesmo estando em choque… eu estou quase vegetariana mesmo, não foi só uma invenção, mas uma antecipação.
      IMPORTANTE: durante os 3 dias de feriado ninguém bebe álcool, nenhum lugar da cidade vende álcool, ele provou a seco mesmo. todos festejam a seco. esse foi o desespero, queriamos encher a cara depois e não tinha onde… rs…
      beijos

  2. Oi rose! incrivel essa experiência, hein!
    deve ser chocante mesmo… mas fiquei pensando como isso faz parte também da nossa religião…. creio que só não fazemos sacrifícios como esse, pq o templo foi destruído… e perderam-se alguns costumes…
    engraçado pensar pq na religião é tão comum o sacrifício dos animais frágeis em nome de deus… que antagônico para os dias de hoje, né?!
    puxei o papo cabeça… vamos deixar isso para lá! beijos!!!!!

  3. Oi Rô! 
    Interessante sua experiência. Sabe que me faz pensar justamente o contrário do que eu entendi da sua interpretação… eu acho que justamente pelo fato de eles matarem os animais de forma honesta e comerem em um ritual de inspiração mística – convenhamos que é muito diferente da frugalidade de um burguês gourmet que vai a um restaurante onde tudo chega prontinho – é o que faz por merecer o respeito de nossa cultura, há tempos desconectada das origens dos alimentos.
    A industrialização da produção de todas as comidas, mas especialmente a carne, desnaturaliza todo o processo e acho que se todo mundo presenciasse ao vivo como é a criação e abate de animais no mundo ocidental hoje em dia, não sobraria muito carnívoro por aí… 😉
    Correndo o risco de criar polêmica, respeito muito mais as culturas canibais que comiam seus inimigos de guerra para incorporar sua valentia (como um ritual de altíssimo respeito por um adversário valoroso) do que a cultura ocidental que compra filezinho no supermercado fingindo que ninguém teve que matar uma vaca para poder entregar aquela carne, alienando-se do processo produtivo, de todo o sofrimento animal durante este processo – animais que nascem com o propósito planejado por um ser dominante: sofrer e morrer.
    Quem sabe um dia a gente entende a vaca como o que um dia foi o negro na sociedade e liberta os animais, recuperando o respeito e deixando para os livros de história o especismo assim como a escravidão humana.

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