Da Ville Nouvelle para a Medina… Da Medina para a Ville Nouvelle

Da Ville Nouvelle para a Medina… Da Medina para a Ville Nouvelle

Sempre soube que o Brasil foi colonizado pelos Portugueses, mas ter a verdadeira noção do que isso significa eu só tive nesta viagem, passando seguidamente por vários países e, podendo assim, entender o que é a verdadeira colonização.

Pudemos identificar a forte colonização francesa no Laos, a inglesa em Myanmar, a holandesa e inglesa na África do Sul, a portuguesa em Macau e países que tem suas características muito fortes por nunca terem sido colonizados como Butão e Tailândia. O que fica muito claro é que países colonizados por franceses e ingleses (ingleses um pouco menos) são geralmente organizados e charmosos enquanto países colonizados por portugueses são uma certa bagunça… agora começo a entender um pouco mais a herança do Brasil.

O Marrocos é um dos países que nos deixa claro o que isso significa. Colonizados por franceses, a cada esquina se encontram cafés com suas mesas redondas, quatro cadeiras de palha à sua volta e pessoas sentadas comendo croissants e tomando cafezinhos enquanto admiram o movimento das ruas. O mais curioso é identificar a herança francesa que se junta à cultura marroquina: nestes cafés só se vêem homens. Não há uma mulher sequer. Na maior parte do dia estes café estão vazios, à noite enchem um pouco, mas não a ponto de justificar o hábito que tampouco um marroquino sabe explicar de onde veio.

Todos falam francês, há lojas de perfumes por todos os lados, bistrôs e patisseries. O humor dos marroquinos também é bem francês, mas o cenário se torna completamente marroquino ao entrar na Medina.

Todas (ou quase todas) as cidades do Marrocos são divididas em duas partes: Ville Nouvelle e Medina. A Ville Nouvelle é a parte nova da cidade, a Medina é onde ficam os mercados, os kasbahs (pequenas comunidades mercantis muradas) e os fondouqs (pequenas vilas onde os artesãos fabricam o que vendem há poucos metros dalí).

Casablanca é uma cidade grande com uma mesquita gigante! “Petit taxis”  vermelhos circulam pelas ruas e a cidade é barulhenta.

Marrakesh se divide entre a Ville Nouvelle e a Medina. A Ville Nouvelle é quase uma cidade charmosa com galerias de arte e cafezinhos, não estivessem as galerias dentro de feios prédios comerciais e os café bonitinhos vazios ou habitados apenas por homens.

Já a Medina é um caso à parte. A grande praça Djemaa El Fna parece um filme. Era dia, caminhando para entrar na área onde a praça se encontra passamos por charretes e muitas, muitas pessoas mesmo indo e vindo. À medida que vamos nos aproximando da praça, as músicas e os barulhos vão invadindo nossos ouvidos. No centro da praça estão homens com macacos (presos em coleiras) oferecendo aos turistas que tirem fotos junto a eles. Encantadores de serpentes que com suas flautas passam o dia emitindo sons agudos para que as serpentes se animem a se levantar. Videntes lendo mãos, homens sentados em frente a uma mesa com dentaduras e muitos dentes em exposição (até agora não entendi o que fazem com isso) e mulheres que fazem hennas. Junto a isso barracas de sucos e frutas secas. Tentando assimilar toda aquela novidade seguimos para as ruazinhas do mercado. De longe é o mercado mais interessante até agora. A arte marroquina é linda, de azulejos a mosaicos e móveis, couros e tecidos coloridos, pratas, pedras e vestimentas típicas. O mais incrível foi ver os fondouqs.

No fim do dia voltamos para a praça central onde ao escurecer pelo menos 50 barracas de comidas são montadas e desmontadas todos os dias. Mais uma volta na grande praça onde agora há mais atrações como músicos e teatros de rua. Indo embora, já esgotados, passamos por um destes homens com bichos. Meus olhos não podiam acreditar no que viam. Tão em choque ainda não sei dizer que outros bichos exóticos este homem tinha. Eu olhava fixo pra ela, enquanto o homem me perguntava se eu queria tirar uma foto… e ela, eu acho, olhava pra mim com o mesmo olhar fixo… não sei quem estava mais em choque, ela de estar acordada durante o dia, naquela bagunça ou eu de ver uma coruja tão de perto tristemente amarrada pelo pé.

Uma cultura milenar em um mundo tão evoluído. Tento entender que isso tudo faz parte desta cultura, mas pra mim nada justifica. Saímos de lá preenchidos por tanta história e cultura. Mais dois dias de Medina e alguns de digestão, galerias e passeios com o olhar mais descompromissado. Mas o olho amarelo da coruja não me sai da cabeça.

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