Um homem só precisa daquilo que pode carregar

Um homem só precisa daquilo que pode carregar

Hoje é um dia chuvoso, estamos em Ubud, Bali. A idéia de vir pra cá foi justamente ter uma semana de calmaria, com tempo para pensar na vida, na viagem, curtir tempo livre.

Raramente sabemos o que é isso, tanto em São Paulo, quanto em qualquer lugar do mundo, em um viagem cheia de coisas novas. O bem da verdade é que é difícil para muita gente lidar com o tempo livre. A gente passa a vida planejando “quando eu tiver um tempo, vou….”, e quando esse tempo aparece dá um verdadeiro branco, ou vazio, algo como uma certa angústia. No meu caso, chamado de saudade de casa ou talvez uma junção de pensamentos sobre valores, dores, alegrias, novidades e quem sou eu frente a tudo isso.

É uma viagem onde passamos o tempo inteiro conhecendo coisas novas, correndo de lá pra cá, conhecendo gente, lugares, paisagens.

Quando comecei a saber usar meu tempo livre em São Paulo produzindo meus trabalhos pessoais, saí para esta viagem. É hora de reaprender, fora de casa, um dia em cada canto, a tentar se sentir em casa para curtir esses momentos.

Mas nos momentos livres a cabeça fica lotada de pensamentos e sentimentos. Por isso mesmo o curso de meditação começado ontem para, como disse o mestre, saber controlar meus pensamentos.  Pra que isso no meu caso? Porque essa viagem faz sofrer, faz pensar, faz tentar entender o que quer o homem nesse mundo, a que veio, o que quero EU nesse mundo, a quem vim.

Com poucas respostas mas muitos sentimentos, a grande mudança que acontece nessa viagem é interna. Quando quem já fez esta viagem nos dizia: “não pense que essa é uma viagem fácil”, eu sinceramente pensava em uma mescla de dificuldades materiais e psíquicas. Hotéis, roupas, falta de conforto, na verdade tanto faz, qualquer um vive com pouco, é só colocar em prática. Mas valores, indagações, pensamentos, impotência, angústia, alegrias, contentamento,  paciência, força, você põe em prática, busca, ou adquire na marra.

“Um homem só precisa daquilo que pode carregar”, ouvi esta frase em um filme, ela é sábia e exige treino, pois como disse, o que pesa e precisamos carregar é realmente pouco. A bagagem psíquica teoricamente não pesa mas vem em grande quantidade e, como é difícil de digerir, se transforma em algo difícil de carregar.

Enfim, para entrar na questão e parar de explicar: eu questiono muito a vida, eu não concordo com coisas, eu quero fazer algo para mudar, eu não sossego, como dizem muitas pessoas. E já que eu sou assim, preciso saber organizar e lidar com o que vejo, o que posso e não posso fazer a respeito, até que ponto posso achar que entendo uma situação que mal conheço e, principalmente parar de julgar o que vejo sem saber. Ter o coração em paz para pensar com clareza.

Passamos por culturas completamente diferentes da nossa. Muita coisa me faz ver tanto que a nossa está certa, como que está completamente errada!

Constatamos (e isso não tem a ver com julgamento), que quando você sai de uma cultura mais primitiva para uma mais desenvolvida a primeira coisa a surgir é a diferença social e, junto com isso surgem as coisas ruins do ser humano, ele perde a simplicidade, a humildade, a pureza, que são as coisas mais bonitas do ser. Quando se vai para um lugar mais desenvolvido, as crianças param de nos sorrir, as pessoas não nos cumprimentam mais, a vida vai ficando impessoal.

Mais instintivo que essa simplicidade existe a natureza humana, que tento e tento entender por ser mais sombria do que eu imaginei. Meu assunto volta sempre para os animais, mas se pensarmos que o ser humano não é nada mais que um animal, porém racional, ele tem obrigação de respeitar qualquer tipo de ser humano no mundo. Sem diferenças, cuidados, tratos. Quando há essa diferença de trato, quando um homem se acha no direito de destratar um cachorro, gato, elefante, ele se torna automaticamente um ser irracional e, pior que isso, sem sentimentos.

Minha análise sobre o ser humano e o mundo, se é que posso chamar assim, está relacionada aos seus valores mais primitivos. Não quero saber da vida de ninguém, onde e como vive, o que possui, mas sim seus instintos, sua verdade.

E aí a vida fica difícil, porque viver na ignorância é bom, é fácil, é bonito. Pensar, questionar, ver, se envolver, dói, muda a vida, transforma a alma.

Tenho tentado me entender para saber como lidar com o que não concordo, não posso decifrar e mais ainda, não posso mudar.

  1. FLOR,
    Q LINDO TUDO O Q VC ESCREVEU !!!!!!!!!!!!
    PARABÉNS POR TODA A SUA SABEDORIA, PROFUNDIDADE E POR ESSE MERGULHO LINDO DENTRO DA SUA ALMA,
      AMO VC ! BJOS, LOVE, MOM

    1. Mom,
      Que lindo o que você disse. Obrigada!
      Você que me indicou o filme que tem essa frase e nós nos apaixonamos por ela… lembra?
      Te amo!
      beijos, love, Ro

  2. Oi Roberta,
    Muito lindo o que você escreveu. Esse é um dos mistérios da vida. Não existe o certo ou o errado. O que parece errado aos nossos olhos pode estar certo no referencial daqueles que não tiveram a mesma experiência, educação ou até a nossa sorte. Somos um produto do nosso meio e das verdades que nos ensinaram. O mais bonito de tudo é que sempre os menos afortunados têm uma alma mais pura, um sorriso mais inocente. O que precisamos fazer? Sempre o bem, não importando a quem. Dessa forma estaremos fazendo a nossa parte para uma vida mais leve …
    Beijo

    1. Rubão,
      É isso mesmo, concordo com o que diz, mas é difícil ver e se conformar com certas coisas… essa viagem é intensa… muda a vida… pra melhor sem dúvidas, mas com uma certa dor. 🙂
      beijo grande,
      Ro

  3. Oi Robertinha. Fiquei emocionada com o que você escreveu, mas não me surpreendi com sua sensibilidade pois você é fruto de uma familia movida pelo coração. Sua ultima frase “eu não posso mudar” diz tudo, mas, saber,  talvez possa doer, mas faz de você  uma pessoa inteira. Adorei o blog de seu amigo e me vi em muitas situações parecidas. Imagino que vocês devem estar cansados e com saudades de casa o que causa uma certa melancolia. A menina corajosa e seu marido companheirão desejo muitas alegrias. Beijos  Lucia 

    1. Lucia querida!
      Obrigada! Sempre! Por tudo o que diz… pelo apoio e carinho!
      Esse amigo meu foi o grande incentivador da nossa viagem, é uma grande figura e o blog dele é engraçadíssimo, ele escreve super bem!
      beijos, beijos, beijos!

  4. rose,
    muito bonito seu texto. me identifico em vários parágrafos, apesar de não ter ido tão fundo ao encontro de mim mesma (tá certo escrever isso?)
    todo esse pensamento me lembrou as aulas de filosofia que tive no colegial… acho que vc poderia tentar conhecer (ou se já conhece, se aprofundar) nos teóricos da natureza humana: Hobbes, Locke e Rousseau.
    se essa viagem interna prosseguir até a sua volta ao brasil, eu me candidato a ser sua companheira de turma em algum curso filosófico do gênero
    beeeeeeeijos!

    1. Neuuu,
      Tá certo sim “ao encontro de mim mesma”.
      Você se identifica em vários parágrafos??? Ai!!!! Fiquei curiosa!!!! Me fala em off?
      Conheço um pouco estes teóricos, mas vale a dica. Na minha aula de HIstória da Arte temos uma grande carga de Filosofia… você adoraria assistir a uma aula que fosse mais focada nisso, posso te avisar quando eu voltar e tiver.
      Com certeza minha viagem interna vai prosseguir, vamos fazer algum curso???? Topo total! Pode começar a pesquisar se quiser!
      Saudades!!! beijocas, até sábado no telefone, eba!

  5. Comentando e me apresentando.
    Tive conhecimento do blog pela matéria “sabático” da revista Vida Simples. O nome relicário me chamou atenção por me remeter a uma música que adoro (Nando Reis) daí entrei e adorei o que vi, adorei o que li, adorei o que conheci e literalmente – VIAJEI. Nunca tive a oportunidade de conhecer uma cultura estrangeira, mas entendi exatamente o seu sentimento neste post, pois já morei em cidades ditas super desenvolvidas culturalmente, socialmente e intelectualmente com Brusque (SC) e São Paulo (SP) assim como já morei também, por exemplo, em Jaicós (PI) cidadezinha no sertão do Piauí, com pessoas muito mais verdadeiras, enfim, tudo mais simples. E realmente só carreguei o que pude.
    Aliás, gostaria de dividir essa letra da música do Patu Fu que tem tudo a ver “isso”. Se puderes ouvir melhor ainda. Bom agora eu estarei acompanhando vocês, boa sorte e boas descobertas.
    Simplicidade
    Pato Fu
    Composição: John
    Vai diminuindo a cidade
    Vai aumentando a simpatia
    Quanto menor a casinha
    Mais sincero o bom dia
    Mais mole a cama em que durmo
    Mais duro o chão que eu piso
    Tem água limpa na pia
    Tem dente a mais no sorriso
    Busquei felicidade
    Encontrei foi Maria
    Ela, pinga e farinha
    E eu sentindo alegria
    Café tá quente no fogo
    Barriga não tá vazia
    Quanto mais simplicidade
    Melhor o nascer do dia

    1. Oi Fernanda,
      Obrigada por escrever! Que bom você ter chegado até mim pela revista, ter gostado e se identificado.
      Bem vinda ao Relicário!
      Linda a música. Ouvi também! Obrigada por dividi-la comigo!
      beijos
      Roberta

  6. Rô!!
    Que beleza  todo esse movimento, necessário!!! Viajar é provocar todas essas intensidades, fico feliz por vcs!
    Não tenho saído muito além do meu bairro mas compartilhado dessas transformações dos sentidos. As aulas estão muito bem Rô, vc faz falta!
    Um beijo grande me vcs e boas aventuras, Dê

    1. oi dê,
      que delícia receber sua mensagem!
      como vão as coisas por aí?
      pois é, a viagem é bem intensa! e por isso muito boa!
      saudades de vc e das aulas! logo mais estou ai, passa muito rápido, já estamos na metade!
      beijos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

7 + 2 =