Troca da guarda

Troca da guarda

Após 40 minutos de carro, partindo-se de Amritsar, pudemos conferir a famosa cerimônia de encerramento das atividades no posto de controle na divisa da índia com o Paquistão. Países que desde 1947, quando conquistaram sua independência, continuam tendo relações restritas em disputas pela região da Caxemira.

Pensávamos ser algo simples, rápido e com poucas pessoas, já que o “evento” ocorre diariamente. Pensávamos! Aliás, é isso que faz a diferença, isso que me faz gostar da Índia, ela te surpreende o tempo inteiro. Abstraindo-se o que é certo ou errado, essas infortunas (ou fortunas) surpresas me trazem um alívio, afinal há algo mais chato no mundo do que estar sempre certo e as coisas serem sempre da forma como imaginou?

Pois bem, chegamos ao local: pipoca, calor e muitos, mas muitos indianos. Numa conta rápida calculei pelo menos 5 mil espectadores ávidos por uma simples ‘troca da guarda” (isso do lado indiano já que pouco conseguíamos ver do lado paquistanês). Esmagados, conquistamos um espaço – se é que aquilo era um espaço – no meio da galera. Eu infelizmente não sou dotado da maior flexibilidade do mundo, pelo contrário, e caso o sol acorde na mínima disposição que seja, já começo a derreter. Após um trabalho interno de meditação e auto controle, continuava curtindo aquele momento com a ajuda dos colegas indianos em volta que só faltaram perguntar a cor da minha cueca.

Aí vem a grata surpresa. Para quem vai esperando uma cerimônia séria devido à rivalidade entre dois países atômicos, que era o meu caso, se surpreende. Sei lá o que pode acontecer aqui, ser o estopim de mais uma guerra ou entrar um homem bomba correndo pelo portão e nos explodir.

Pode parecer ridículo, circense, animador com microfone incitando o público a gritar, torcer (dizem que de forma respeitosa), soldados quase que dançando se reverenciam em largos passos. Após meia hora de cerimônia, as bandeiras são baixadas com o sol poente ao som de clarins, gritos de soldados tenores e um singelo aperto de mão entre dois comandantes que representam suas respectivas nações. Do lado paquistanês a festa é semelhante, porém neste dia com menos torcedores.

A cerimônia ou evento se transforma numa festa … uma pena que sem cerveja. Não mais piegas do que possa parecer a guerra de tomates na Espanha, a corrida de carregamento de mulheres na Finlândia, a luta livre americana e sua versão “gigantes do ringue” brasileira ou o campeonato de homem mais forte do mundo. Mas havia sim algo especial no ar. Após dizer a cor da minha cueca ao colega indiano ao lado, ele abraçou os dois amigos e me disse com largo sorriso: “Queremos mostrar nosso orgulho de ser indianos. uma demonstração da nossa força e alegria!”. Por um instante senti um nacionalismo mais nobre e especial que o que nós brasileiros costumamos sentir na conquista de uma medalha olímpica ou de um campeonato mundial de futebol (Engraçado só de pensar algo parecido na fronteira entre Brasil e Argentina).

A Índia da indiferença, da miséria, sujeira, barulhenta e do transito caótico, é também um dos países mais ricos que tive a oportunidade de conhecer. Um paradoxo perfeito. Afinal, o que esperar de um país com sítios pré-históricos que remontam a 20.000 A.C., da Índia mitológica e dos grandes épicos, das ascensões e declínios dos diversos reinados e dinastias, dos moguis e seu Taj Mahal. A Índia invadida pelos turcos muçulmanos, das guerras territoriais entre portugueses, franceses e ingleses, que culminaram no Raj Britânico. A índia de Mahatma Gandhi e sua cruzada moral de resistência não violenta rumo à independência. A Índia das especiarias, dos tapetes, dos tecidos e saris, da arquitetura, das pedras, do ouro, dos diamantes, dos preciosos animais selvagens que só se encontram aqui. A índia das castas rig védica, do jainismo, do cristianismo, do Islã e que não contente acolheu e iluminou Buda. Não obstante, a Índia que hoje recolhe Dalai Lama. A Índia espiritual dos ashrams e do fanatismo pelo críquete. A poderosa emergente de Ratan Tata, Lakshmi Mittal, Mukesh Ambani e da tecnológica Bangalore. A Índia dos ghats do Ganges e de Tereza de Calcutá. A índia da neve, do deserto, se reconstruindo após terremotos. A Índia de 1,2 bilhão de curiosos, com forte personalidade marcada pelos seus contrapontos.

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