Do 8 para o 80

Do 8 para o 80

Ao sairmos da Nova Zelândia e darmos um fim nos nossos 26 dólares neozelandeses em chocolates (para não sobrar com dinheiro de outro país na mão), mal sabíamos que estávamos fazendo a melhor coisa que uma pessoa pode fazer antes de entrar na índia.

O fuso caiu quase 9 horas. Estávamos a 16h de diferença do Brasil, agora estamos a 8h30. Os chocolates serviram tanto para as acordadas no meio da noite sem sentido ou, às 6h da manhã quando o café ainda não tinha sido servido no hotel ou, como foram todas as nossas sobremesas até agora. E ainda não acabou!

Sempre escutei que os dois primeiros dias na Índia são difíceis, muita gente, cultura muito diferente, mas que depois a gente se acostuma.

Me acostumar está sendo um pouco mais difícil do que imaginei. Ok, quem mandou marcar a Índia bem na época de tpm??? Mas se fosse só isso, seria bom!

Estamos no quarto dia de Índia. Chegamos terça-feira, dia 16 de março, direto da Nova Zelândia. A saída do aeroporto já foi algo jamais visto. Uma cidade de chão de terra amanhecendo, uma poeira visível, que não nos deixava ver direito o outro lado da rua, muita gente, buzinas, bagunça.

Seguimos a dica de não andar de ônibus e contratamos o motorista do hotel para o primeiro dia de delhi. Com dificuldade nos comunicamos com um inglês gestual, fizemos um “sightseeing tour”. Visitamos o Baha’i House of Worship conhecido como templo de lótus, projetado por um arquiteto iraniano. O templo tem o formato de uma flor de lótus e suas 27 pétalas são feitas de mármore. Terminamos o tour em uma fábrica de tecidos.

Nós brasileiros temos mania de desconfiar de tudo, achar sempre que estamos sendo enganados. mas o alerta quando você chega aqui, não é diferente. Então você segue com essa sensação.

O homem que nos recebeu na fábrica era um personagem. Tirou os sapatos e sentou num colchão (na Índia pudemos ver que em todas as lojas de tecidos a venda é feita sentados em colchões) em frente a uma prateleira de tecidos do chão ao teto. E esta se multiplicava por mais ou menos 50 em toda a fábrica. Contou a história : um lugar subsidiado pelo governo onde 400 famílias trabalham de todos os cantos da Índia, cada uma com um estilo diferente e tudo é vendido lá.

O cara era um mestre em vendas, marketing, lábia, sei lá como isso chama. Ficou uma hora só no blá blá blá. Começou a nos mostrar os tecidos. Realmente uma coisa mais linda que a outra: colchas de cama, sáris, tecidos, toalhas de mesa, tapetes, pashminas. pausa para o momento pashmina: já que estávamos lá, pagando para ver, depois de uma pilha de pashminas de todas as cores e estampas pedimos para ver o que ele tinha de melhor. Um moço que estava ajudando (alguém da família) trouxe uma mala de couro marrom, colocou no colchão. O vendedor abriu os clips da mala, enquanto falava sobre o que estava lá dentro. Abriu a mala e lá estavam algumas poucas pashminas, de uma qualidade bem superior (ao que pudemos identificar no toque) e claro, mais caras. Um show de marketing! De dar água na boca! Ficamos na dúvida, mas após uma pechinchada resolvemos arriscar a compra e mandar para o Brasil. Se fomos enganados ou não sobre a história das 400 famílias, que é o preço mais barato de toda a Índia, não sabemos mas já ouvimos dizer que sim, o que importa é que mesmo assim, perto do que pagamos no Brasil por algo assim, que dificilmente se encontra, pagamos barato e agora é rezar para chegar.

Depois de um dia de carro, no dia seguinte resolvemos andar por Delhi. Pegamos um tuk-tuk, demos o nome da mesquita Jami Masjid como ponto de referência. Quando você olha um mapa você, pela escala e pelo o que supõe, imagina algo em sua cabeça. Pra mim iríamos a um bairro, com muitas lojas de tudo o que se possa imaginar, iríamos caminhar “tranquilamente”, tirar fotos, dar uma fuçadinha em alguma coisa indiana para comprar. Nada disso! Atenção 100% desde o momento que você desce do tuk-tuk. Motos, carros, gente, todos vindo em todas as direções, ninguém pára, todo mundo buzina.

Não há espaço para andar: ruelas, avenidas, gente tentando te vender tudo, então parar para fuçar uma coisinha, significaria comprar. Um indiano não te deixa sair sem levar nada. E tirar fotos, além de ser tenso, ao contrário do que sempre imaginei, não me trouxe inspiração.

Como disse uma amiga quando contei sobre isso: “olha como suas fotos realmente fazem parte de você.”

Explico, a Índia é sim um país muito curioso. Ao mesmo tempo que tem grandes monumentos forrados de mármore, ouro, pedras preciosas, tem um povo desgraçado pela miséria. Ao mesmo tempo que suas mulheres se vestem de lindos sáris e jóias, vivem em uma sujeira impressionante. As leis de trânsito, a consciência da limpeza, a organização geral da cidade, as vacas, os cachorros, o homem!

É por isso que não me acostumo. É por isso que não tirei tantas fotos. É por isso que não concordo com o que vejo. São valores que me fazem ver uma Índia cruel.

Que por um lado supervalorizam as mulheres, as fazem vestir seus sáris para que estejam bonitas e para que justamente não mostrem seus corpos.

Os homens transitam pelas ruas como querem, com suas roupas confortáveis, muitas vezes de mãos dadas com amigos, nitidamente desfrutando de sua masculinidade, ou melhor dizendo, superioridade.

A mulher recatada, com seus filhos no colo, sempre atentas, me olhando estranho por meu jeans e camiseta de manga curta sem decote, que me fazem realmente questionar que direito elas têm, se não estou de shorts e regata em um calor de 35 graus, por respeito a elas!

As mulheres, os homens, todos olham estranho, indecentes, admirados, indignados.

E eu olho mais ainda. Como podem admitir e conviver com os maus tratos aos animais. Na rua, vacas, cachorros, bezerros, magros, sujos, largados. Será que são de alguém? Será a índia de todo mundo? Está na rua mas tem dono? Afinal, todos estão nas ruas. Dói ver, não suporto. O olhar de surpresa, de desprezo ou de curiosidade, dói. O mundo visivelmente machista, dói. O estar atento a cada gesto para que não nos passem a perna, por fim, dói.

Uma cidade cercada pela miséria. A luta de cada um pela sobrevivência.

Uma energia estranha. Com o que eles se importam? Quem são eles? O que é a Índia de verdade?

Tuk-tuk de volta para o hotel. Tento não pensar no que ficou lá fora.

  1. Roberta e Guto. Adorei viajar com vocês por Delhi, através do meu computador naturalmente. Você escreve gostoso e ri quanto aos chocolates. Quando voltar você deve ler se já não leu o livro Sári Vermelho de Javier Moro. Ele fala da saga da familia de Indira Ghandi e muito sobre sua nora italiana, agora mais indiana que italiana. Imagino a beleza dos tecidos e pashminas. Eles são fantásticos não só nos tecidos e cores como também no corte, O Templo de Lótus deve ser lindissimo, O Faustão mostrou num programa dele, um Templo na India dedicado aos ratos. Fiquei impressionada, pois eram mais de 2000 ratos, comendo em tigelas com crianças e adultos. Eles acreditam que os ratos são seus antepassados. Espero que as coisas melhorem e que você possa se dedicar mais as fotos. Minha amiga Lucia Carneiro te mandou mensagens. Beijos

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